Robert Wilson — dramaturgo, fotógrafo, diretor teatral, videomaker, coreógrafo, autor de óperas, iluminador (segundo matéria do Globo) —, encenador
Todo santo dia, já deu pra perceber pelas citações que meu dia começa cedo, lendo O Globo de cabo a rabo: da página um do primeiro caderno, passando por política e economia e demais suplementos, conforme o dia, à última página do segundo, deixando de fora as novidades do esporte.
Todo santo dia, algumas horas mais tarde, o dia do Alan começa me perguntando o que foi que eu li no Globo poucas horas antes, ao que eu respondo, algo confusa e bem freqüentemente — ops, frequentemente (afinal de contas, já está em vigor o novo acordo ortográfico ou não?, alguém me informe pelo amor de Deus): não lembro.
Não é pra menos. De "quem lê tanta notícia?" até "pra que ler tanta notícia?", o que eu percebo é que o enfoque constante nos graves problemas da humanidade faz com que logo à primeira olhada a minha mente, assim, digamos, se desligue da aridez dos fatos, ou entre rotineiramente no modo automático que identifica, sem que eu saiba por que ou como, alguns poucos assuntos para o post do dia. E pronto. Cai todo o resto na mais informe monotonia — mais no sentido de "uniformidade fastidiosa de tom" — à qual procuro escapar, se é que (poucos de) vocês me entendem.
Hoje, por exemplo, eu pretendia começar este texto concedendo um raro benefício ao nosso Presidente Lula, este visionário: afinal de contas, o nosso Abençoado Obama acaba de incentivar o povo americano — a partir de hoje (é Dia de Ação de Graças ou, para os mais íntimos:
Thanksgiving) dando o ar de sua graça em plena estação anual de compras — a consumir, consumir, consumir, sob a mesma premissa do nosso avançado líder local: é o consumo do povo que move a economia, estúpido, ou em outras palavras, quando Obama vem com o milho, Lula já foi com o mingau, ops, pipoca. No caso de Obama, claro, sendo ele o milagroso líder de uma nova era ainda por vir, é recomendada a moderação em tudo, mas pronto, lá vai ela ladeira abaixo: não era sobre isso que eu ia escrever, gente, não.
A verdade é que não estou nem aí para a sociedade de consumo, embora, claro, a critique ferozmente enquanto na intimidade a alimento envergonhadamente com os meus (nada) modestos sonhos de mais beleza e mais conforto. Imaginem que até me diverti um bocado, e com o considerável atraso que é praxe aqui em Itaipava — e a falta serrana de ansiedade por tudo que é novidade e que derruba os preços à metade —, com o dvd de Sex & The City, o filme — a última bíblia da sociedade de consumo (em extinção?) onde não faltam sonhos de mais beleza e mais consumo, ops, quer dizer: conforto. Mas como em quase tudo na vida, imaginem, até mesmo em
Sex & The City, o filme, dá pra encontrar algum tipo de mensagem edificante, no caso, a beleza do amor e a intimidade entre amigas. Mas bem. Hum. Ainda não era sobre isso que eu queria escrever.
Eu poderia mentir que atribuo o título acima à minha elevada auto-estima erudita, evidenciando na sofisticação do texto um conhecimento acima de qualquer crítica, mas gente: o que acontece mesmo na minha modesta-porém-pretensiosa vidinha de cronista é que todo dia, quando leio sem grande atenção de cabo a rabo as páginas monótonas do noticiário no Globo — que hoje em dia na verdade repetem o que já li antes na internet ou assisti na tevê a cabo, vem daí quem sabe a intermitente sensação de tédio interrompida somente nas raras páginas instigantes sobre cultura e arte no segundo caderno —, me conecto não sei como com não sei qual outro nível de informação que me atrai, e raramente me trai, me trazendo à memória fatos desconexos que associo em posts que pra você, leitor, representam não raro um vasto desafio ao simples entendimento.
Quo vadis, no caso, é um tipo desses de título com múltiplas referências e num campo tão amplo que excede o alcance da mera consciência, taí, como o Alan bem diz: "mesmo quando estou errado o universo me apóia", isto é, a intuição do escritor supera a consciência dos fatos, embora às vezes, claro, resulte lamentavelmente num mero samba do crioulo doido.
De volta a
quo vadis:
— uma
expressão cristã que evidencia a dúvida entre o dever social e o interesse próprio, mais ou menos isso
— um
romance polonês dos mil e oitocentos que se passa na Roma antiga e contrapõe o poder do amor ao poder militar, mais ou menos isso
— e
last but not least — que no Globo de hoje li a expressão inglesa citada no original mais de um par de vezes, deve estar na moda — um
filme oscarizado do início dos anos 1950 baseado no romance acima, taí, não sei se me lembro da capa do livro na estante lá de casa ou do filme revisto décadas mais tarde, provavelmente um pouco dos dois, mas cá entre nós, de novo, o que tem a ver qualquer desses
quo vadis com Robert Wilson?
Bem. Hum. De uma coisa pelo menos eu sei: "
quo vadis" em latim quer dizer "aonde vais", quer dizer, não sei onde vou. E por falar nisso nem o Robert Wilson, um encenador que eu já curti bastante e que pelo visto na visita a São Paulo continua bem por cima da carne seca, avesso a rótulos e sem deixar a peteca da criação cair quando, provocando riso, confessa: "se souber o que está fazendo, não faça".
Leio na entrevista do Globo que Robert Wilson nasceu em Waco, no Texas, uai, gente, não é também de Waco aquele guru histérico do
suicídio coletivo (o que me remete muito sem querer ao novo e sofrível filme de M. Night Shyamalan, "The Happening")? Tá certo: uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas taí, é desse jeito mesmo que a minha mente demente funciona diariamente, uma coisa puxando a outra e, por falta de um filtro decente que a organize, se misturando à outra, ah, tá bom, vou contar pra vocês, finalmente, sobre o que é que eu queria escrever hoje: o poder e a necessidade de escolhas e a contraposição teórica entre a intuição e a razão, deu pra entender ou não? Voltem agora ao primeiro parágrafo e vocês verão, com toda a certeza, como a lição do espírito iluminado que ora me guia deixa a mensagem do dia: clara como água de chuva em dias de chuva de verão, isto é, ah. Deixa pra lá. Melhor se limitar à epígrafe lá de cima e esquecer todo o resto, podem acreditar.
Ou optar, quem sabe, pela falta total de pensamento linear na arte da escrita para confrontar, com alguma beleza e conforto, a excessiva linearidade da sociedade culpada de consumo refletida no noticiário diário do Globo. Mostro do que gosto e estamos conversados. Ou não: falei (muito) e disse (muito pouco), e assim caminha a humanidade, ih, me perdi.
Tudo bem. Relaxem. Divirtam-se. Afinal de contas, é pra isso que eu venho todo dia aqui.