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HIEROSGAMOS - DIÁRIO DE UMA SEDUÇÃO
ISBN : 8599822608
Brochura - 16 x 23 cm
1ª Edição - 2007 - 256 pág

R$ 34,90




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Noga Bloga: a crônica cotidiana de Noga Lubicz Sklar
Disclaimer: as crônicas do Noga Bloga cultivam o gênero contemporâneo de literatura intitulado "ficção autobiográfica". Tudo que escrevo a respeito de mim mesma é a mais pura verdade ou, pelo menos, a minha visão particular dela. Todos os demais personagens podem ou não ser reais, primando sempre, no entanto, pelo absoluto exagero. Se você acredita ter identificado alguém no texto além de eu mesma, pode ter certeza de que não passa de engano de sua parte. Qualquer disposição em contrário, eu nego sempre. Leia por sua própria conta e risco e... divirta-se.



No God, no Good?

Fotorrecado de marido fiel à ideia de Deus (e que não se conforma com o meu hesitante porém insistente ateísmo) recebido bem cedo esta manhã:


Não sei se o Alan sabe, mas o criador à frente da criatura é Richard Dawkins, o nosso ateólogo-mor, o mesmo que em seu site — "um oásis de lucidez" — fotocomunica, irônico, a sua profissão de fé:



É. Uma boa mensagem tem mais poder de convencer do que uma oração de curar, pelo menos é o que afirma a ciência da propaganda. Pois imaginem essa, que veio de Londres, agora se espalhando pelo mundo: breve num ônibus bem aí, atravessando o seu caminho. Um escândalo de lucidez, mas... será? Paúra. Tesconjuro.

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Os sem-jornal: dia dois

Na medida do possível, e da apaixonada, provocada — e provocante — exiguidade de assuntos que assola o noticiário neste princípio de ano, estou, do jeito que consigo em tempos de tanta destruição, feliz com a minha opção. Se não fosse o tempo liberado pela falta do jornal ao lado, eu jamais teria tido o tempo, a curiosidade, e a carência informativa, claro, para encontrar o blog do Reinaldo Azevedo no site de Veja, "um oásis de pensamento independente, de racional e ousada imparcialidade (na medida do impossível) dentro da onda manipuladora que vitimiza a imprensa", mais ou menos isso: comentei lá. Obrigada, Reinaldo.

de um anônimo sensato, na blogosfera: "Se os palestinos depusessem hoje as suas armas, não haveria mais violência. Se os israelis fizessem o mesmo, não haveria mais Israel."‏

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Mais uma carta aberta

"Nesse jogo, violência não gera necessariamente mais violência; às vezes a evita."
David Brooks, para o NY Times


Caro Milton,
Você não me conhece, mas sou sua leitora e também escritora. Te escrevo depois de ver seu nome citado no blog Biscoito Fino, recentemente transformado em central antissemita de mentiras, um choque para a mente intelectual brasileira, é o que eu penso, e que sequer admite comentários porque as verdades — manipuladas e manipuladoras — que propaga não estão em discussão. Ora, é este o comportamento típico de fascistas, não importa a que "lado" estejam associados, e eu não gostaria de ver seu nome, tão laureado e apreciado como um dos maiores da literatura brasileira contemporânea, associado a este tipo reducionista de atitude.
Sei de sua ascendência árabe, tão valorizada e presente em sua obra como a judaica na minha. Há uma situação de guerra, e todas as guerras são tristes. Sofro como qualquer um pelas perdas humanas, mas acredito que acima das paixões é necessário um poder de análise, de alguma perspectiva histórica, e por isso aprofundei minha pesquisa ao ponto de explorar os relatórios ingleses originais sobre a partilha de 1948.
Faz tempo que não ouso ir tão longe na história em busca de alguma verdade. A partilha de 1948, assim como a criação artificial do Iraque, foi a resposta política a uma realidade de então e, em certa medida, ambas se revelaram desastrosas. O que podemos fazer a partir disso? É claro que no caso de Israel, é necessário um difícil e doloroso consenso que, para mim, passa pelo projeto de dois estados. Israel, a meu ver, um país erguido do nada, por cidadãos humilhados e quase reduzidos a nada, é um milagre de regeneração humana, embora eu lamente sempre o estado constante de beligerância a que se viu obrigado, e por isso não moro lá. Acredite, não é nossa natureza, sim, digo "nossa" porque embora eu não more, nasci lá, e fui educada com amor a um país que significa segurança e dignidade para o povo judeu, um povo sofrido, exilado e frequentemente perseguido.
O que tenho me perguntado nestes últimos (e trágicos) dias é como o incrível povo árabe, antes ainda dos judeus criadores das bases da cultura, arte e filosofia ocidentais (seria o termo "ocidentais" aqui um contrassenso?) resultou numa realidade de atraso, exploração da miséria popular por políticas criminosas, uma opção pelo fundamentalismo violento e uma estratégia de incentivar a ignorância do povo e práticas religiosas obscurantistas. Não é este o verdadeiro Islã e, felizmente, tenho visto algumas vozes locais se rebelarem contra este estado de coisas. Por que sequer se pensaria em adotar literalmente a lei do Talião no século 21 — mãos cortadas, olhos arrancados e crucificação — como o Hamas fez há pouco, num mundo conectado pela alta tecnologia da informação e sedento de diplomacia? Como acreditar num paraíso povoado de virgens como prêmio supremo para o assassinato de inocentes?
Me desculpe se me excedo, o que você, mais sábio, evita em seu artigo. Assim como a pobreza de Gaza que você menciona poderia ser evitada num processo de paz e cooperação econômica com Israel, que, tenho certeza, se abriria para isso. Atirar Gaza ao mar? Creio que este argumento está invertido, sim, meu amigo, são os vizinhos belicosos que desde sempre afirmam desejar fazê-lo.
Não é um bom momento para nos conhecermos, mas sim, para medirmos cada palavra publicada, que eventualmente poderá ter a força de impor ao leitor uma imagem de nós mesmos que não procede, e poderá ser cobrada. Gaza, infelizmente, em suas últimas eleições livres, escolheu ser governada por criminosos confessos e não, não há "preço" a ser pago por isso, mas queira Deus — ou melhor, queiram os homens de alguma vontade porque não acredito em Deus, embora, vício de linguagem, o cite — que se encontre um meio de pôr fim a tanto sacrifício, sim, de ambos os lados. Embora a maioria, hoje em dia, influenciada pela propaganda política e por um antissemitismo latente nunca realmente contestado (ou ao menos considerado como a doença social, a vergonha racista que realmente é), tenda a pensar que, por ser mais rico e ter mais poder, Israel não sofre. Sofre sim. E cada arma poderosa que possui, cada deserto enverdecido que aquele país exibe, pode ter certeza, foi fruto de um trabalho insano, em meio a insana adversidade e, sim, por que não dizer, de um vasto e irrestrito apoio de judeus ao redor do mundo.
Sendo o mundo árabe hoje em dia tão poderoso, a ponto de controlar a economia mundial com suas decisões comerciais como se controla uma marionete, por que não apoia os irmãos com dinheiro, educação, vasta informação, melhoria de qualidade de vida? Que lucro há em semear em seu próprio meio tanta violência e ódio? Aparentemente o resultado de tantos anos de rejeição, negando liberdade de opção, progresso e evolução social a seus próprios cidadãos é o que está aí, cobrando seu alto preço em vidas.
Obrigada. Shalom. Salam.
Noga Lubicz Sklar

na blogosfera: Reinaldo Azevedo

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Pobre Oswald de Andrade

"A massa ainda comerá o biscoito fino que eu fabrico."
Oswald de Andrade


Mas que Biscoito Fino é esse? Me amassa. Nossa. Tremendo. Pois fui ao Biscoito Fino em busca de explicação para o meu sumário defenestramento pelo meu ex-faceamigo Idelber Avelar e , ai, lamento, encontrei bem mais do que fui procurar: explícito ali, nem ao menos camuflado (por mero amor ao pensamento civilizado), vestido de um magnífico e como se viu enganoso e caudaloso currículo, um brilho acadêmico de responsa e um mais atraente ainda amor auspicioso pelo Ulisses de Joyce — esse aí, confesso, o propulsor da minha inocente proposta de amizade — um vergonhoso, anacrônico, violentíssimo antissemitismo, uma das piores formas clássicas de racismo. "Chacina sionista"? Fujam. Pobre Oswald de Andrade, espúria homenagem, ou será que... o movimento modernista era também fascista? Duvido.

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Amizade de fachada

Se conseguir um novo amor, com toda a excitação que uma nova paixão estabelece — ultrapassada a quase impossível barreira física do sexo explícito, o contato tão temido com um corpo desconhecido e seus cheiros assustadores, frequentemente rejeitados —, já é complicado na nossa idade... imaginem então uma boa amizade. À primeira vista — ou, num mundo altamente conectado, à primeira e automática adicionada no site — pode até parecer que é bem tranquilo. Mas uma aproximação verdadeira, daquelas gostosas onde a gente se abre, se entrega, se encontra, discute qualquer assunto, sem medo nem risco de uma grande perda afetiva, aí, meus "queridos", é bem outra coisa.
Eu que o diga. Não sei bem por quê — já que na verdade acredito ser ótima amiga —, cultivar relações para mim jamais foi algo assim, que acontece na vida. Me abrir nunca nem foi problema, cresço na trama, transpareço, me exibo com gosto e não passo recibo, mas fazer-me entender é que é um drama. Antes que a questão se esclareça, é líquido e certo que eu perca a paciência, mas, como quase todo mundo — e cada vez mais neste mundo de aparência — careço de bons amigos (e, claro, de bons, preciosos "contatos"), então vamos lá. E se o aprimoramento exclusivo a dois com o marido estrangeiro, por um lado, alimenta a urgência de convívio, por outro limita a vasta experiência com a "verdadeira" vida que, como sempre, vocês já sabem: se desenrola lá fora. Ou dentro de uma tribo que sempre te deixa de fora.
O problema é antigo. Mamãe, coitada, fazia o que podia: me lembro da cena constrangida, ela me chamando para um encontro no clube e eu, bem calada, escondida no armário, tentando escapar ao aterrorizante perigo do(s) outro(s). Ui. Alívio temporário .
Pois é. Imaginem agora o prazer pressentido, aliado à falta total de compromisso, com a facilidade assim, meio robótica, para encontrar amigos em sites gratuitos de relacionamento, o incrível Facebook, por exemplo. Respondi positiva a um convite animador desses e logo depois, aceitando as sugestões de não sei que conselheiro social embutido, fui com uma sede de anos, áridos anos de um prático isolamento jamais vencido, ao pote enriquecido de nomes bem conhecidos, todos te aceitam de cara: ô delícia. Bem. Mais ou menos isso. Até que acontece, é claro, a primeira, a mais dolorida (por ser ainda meio desconhecida) e muito mal-sucedida exibição de uma intolerante, hum, intrigante falta de interesse por escutar o ponto de vista alheio.
Em toda uma vida de busca frustrada por irmãos de fé adquiridos, defenestrei sem dó, e sem dó fui defenestrada outras vezes, pelo mesmo e nada prosaico motivo: minha jamais negada origem mosaica, que embora eu nem sempre professe, esclarece, é claro, uma fidelidade ancestral implícita. Um traço cultural que eu aceito, aprecio, mas do jeito que posso e consigo, sempre abro ao debate, à pesquisa, à dúvida, à revisão constante do familiar compromisso. Fé cega, eu hein? Nunca foi comigo. Por isso não me espantei nem um pouco quando anos depois de ter quase perdido um grande amigo (este, como eu, de visceral ascendência semita, um brimo), na época do ataque ao Líbano, perco outro, nem tão íntimo, nem tão envolvido — uma recente aquisição interessante de Facebook, nada mais, e, nem por isso, sentido como tão dispensável quanto deveria —, por conta da guerra atual contra o Hamas, desprezíveis e retrógrados terroristas, o povo palestino que me desculpe.
Não defendo as posições de Israel como nenhuma fúria cega, nunca defendi, e nenhuma intolerância imposta por puro apego à famiglia, vamos combinar. Mas que alguém que nem tem o vínculo, nem o acesso à informação interna, nem a certidão de nascimento, nem a profundidade de uma perspectiva histórica de toda uma vida, nem a sensação insubstituível da íntima convivência local, nem o sangue, nem a herança genética, nem o envolvimento muito pessoal — por algumas vezes apaixonado mas, na maioria delas, nada disso —, com uma crise humana complexa, ancestral e sensível, alguém movido a contatos passageiros com comunidades fajutas, temporariamente aglutinadas, alimentadas por familiaridades forjadas e que têm como liga conveniências políticas de propaganda, tão mutáveis quanto descartáveis, amizade de fachada, isso sim, que não resiste ao mínimo argumento em contrário, nem se expõe a um sincero movimento de simples porém transparente aproximação, ufa, se sinta dono da única verdade, isso eu não admito: pelo tamanho da frase já deu pra entender que por mais que eu deseje, por mais que eu me meta, por mais que eu aceite me relacionar com uma controlada veracidade e eletrônica voracidade de Facebook, me perdoem a pressa, não fui feita pra isso.
Corre nas minhas veias caretas o sangue vermelho do sério compromisso. E se não for pra ser tudo, pra tudo e com tudo que vier ao comício, me omito. Me desligo. Deixo correr solto o rol breve de amigos com seu estudado, encomendado e muito contemporâneo não-mexa-comigo. Se quiser me seguir, me siga, mas não se envolva de maneira alguma com esta perigosa "amiga": a intimidade é um mal de crônica a que em lista pública eu não me submeto (e não, esta não sou eu: é apenas a regra aparente, o preço nunca pago, e raramente oferecido, para a conquista de verdadeiros amigos).
Conexão de ficcção (com um cê de você a mais, nem ligo)? Lamento. Não dá pra ser assim contigo.

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Os sem-jornal: dia um

"...na música e na literatura, como forma de tapar os buracos de sentido da vida, ou melhor, tapar o grande buraco de sentido que é a vida."
do blog do Paulo Roberto Pires



Até agora tudo bem. Só de teimosa fui conferir na porta e o jornal, como esperado, não estava mais lá. Como planejado (pois é, gente, como boa mineira careta — reparem que evitei o habitual "capricorniana", um clichê astro(i)lógico no qual bem que eu me encaixo mas que, no fundo no fundo, não passa mesmo de um pobre acaso —, sim, eu planejo tudo) me sentei para o café com o laptop ao lado, pensando em explorar, neste conturbado início, as práticas delícias tecnológicas do feed: uma assinatura a domicílio trocada por várias outras. Bem. Nem tudo que eu gosto oferece o feed, descubro, desconsolada (pra vocês que me amam, eu sim: confiram a velha novidade bem aí do lado). Mas o que é que estou dizendo? Nem sei bem do que gosto, viciada em Globo desde criancinha, isto é, desde que há vários anos traí minha mãe, e abandonei à própria sorte o já decadente Jornal do Brasil. Mamãe jamais me perdoou.
Vitórias do primeiro dia, sorte de iniciante: a cada gole adocicado, em vez das deprimentes falcatruas do governo; da troca de amores sem nenhum respaldo com o novo prefeito; da esmiuçada, bastante ampliada e mil vezes goela abaixo empurrada (e também deprimente) crise econômica; das bobagens sociais, pequenas ironias, idiossincracias de colunista; em vez de alimentar o vício e a insidiosa (embora involuntária, eu sei) militância jornalística contaminando meu próprio estilo de cronista; em vez das maldades de Flora, e de outras fofocas televisivas que por pura ignorância nem cito... irriguei meu cérebro aflito, nas primeiras horas famintas de notícia desta manhã de nova vida (chuvosa, pra variar e me acalmar), pontocom: Susan Sontag, Harold Pinter, Domingos de Oliveira, e mais algumas instigantes reflexões sobre a amizade, sobre os vazios desta vida, no blog do Paulo Roberto Pires. O noticiário e suas tensões diárias? Ficam pra mais tarde, na Veja, no NY Times, (só temporariamente, enquanto a guerra durar) no Haaretz e — por que não que não nutro ressentimentos, nem cultivo preconceitos — no site muquirana do Globo que não permite nem link nem cópia.
Com a prática, tende a melhorar.

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Contra-adições

"Durante os dois primeiros anos da relação, estava sempre preparado para que um dos dois fosse embora. Nos cinco anos seguintes, eu continuava achando que era apenas acomodação, e em breve cada um seguiria seu destino. Vinte e nove anos depois..."

A citação aí de cima, um pouco grande demais para ser chamada de "citação", pasme, é de Paulo Coelho. O link não te leva ao resto do artigo, nem tente, mas a um blog que o Paulo Coelho mantém no G1 com citações diárias, algo assim como "a mensagem do dia". Espanto.

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Um Globo em crise

"Vinte e cinco eu francamente achei barato, pra me livrar do meu atraso de vida."
Chico Buarque



E quando apelo à poesia, ao assunto arrastado, a página em branco, o enfoque aliterado, você pode entender: estou em crise de estilo. E pior, às vezes de conteúdo.

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Twittertura

A palavra é curta. Resumo é estilo. Objeto do vício. Conjugado. Apertado. Frase solta. Foto é grafia? Ora a ação. Apelido. Neotelegrafismo. Ritmo. A regra. Rompido. Puro ruído. Taca o taco. A fonia em cacos. Com o passo inspira. Agora. Só ponto. Enterra o rompido.

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Um breve gosto de futuro

"O cérebro, como instrumento físico, evoluiu para processar informações e fazer predições sobre o futuro."
Marc Hauser, the Edge, janeiro de 2009


Enquanto o mundo em volta ainda dorme num silêncio de ressaca atordoante, egresso exausto dos ruídos explosivos da noite de ontem, escapo da cama para um de meus rituais favoritos: a leitura de um mundo novo nas páginas online da Edge, sim, todo ano a mesmíssima coisa e, no entanto, sempre tão diferente. Instigante. Fora da moldura habitual do pensamento e, justamente por isso, tão evidente.

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O cronista do ano novo

Para quem, como eu, raramente se liga em objetos teóricos de estudo como a antropologia, vem com surpresa a constatação, neste último dia de um período aleatório de tempo que termina hoje, de que foi se formando ao longo do ano, na base quase sempre árida das páginas de minha própria opinião — respaldada em papel no Globo, claro — um dos nossos melhores cronistas: Roberto DaMatta, um antropólogo.

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Carta reaberta

Está circulando pela internet, e publicada no site do meu mais recente facefriend Idelber Avelar — um intelectual, um joyciano acima de tudo o que quer dizer, imagino, um sensível militante incondicional da paz —, uma carta aberta do israelense Uri Avnery a Barack Obama. Leio a carta por alto e mesmo assim ela incomoda: soa como aquelas correntes frankensteinianas que circulam pela web, como esta que recebi hoje por email, um "depoimento de Victor Hugo adaptado por Vinícius de Moraes", pequenas doses de sensatez amarradas por clichês, grandes absurdos.

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Entre eufórica e estupefata*

"Os cães ladram e a caravana passa."
Provérbio árabe, apud Ibrahim Sued


Nem é que eu queira assim, de última hora, defender a gestão controversa de César Maia no Rio de Janeiro, mas que foi gostoso ler no Globo a *descrição da maravilha que ainda não sei se é, mas que certamente virá a ser, essa Cidade da Música, ah, isso foi — e olhem que ultimamente essa coisa de maravilha é de se contar nos dedos.

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A defesa é o melhor ataque

Sim. São mais de duzentos. Entender essa onda imensa de simpatia mundial, refrescando a moral longamente combalida do povo palestino, eu bem que entendo. São mulheres e crianças mortas, civis indefesos, inocentes inúteis sem escolha alguma, transformados à revelia em alvo de canhão sem que a isso aspirassem, sim, mas por quem? Por que tantos civis abatidos numa ação militar? Insolência? Sim. Vale perguntar. E no entanto, acreditem, a resposta não virá. A foto publicada intervém. Mostra a mão do desdém: vidas sem valor, mas, para quem?

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Fase de testes

Aqui em casa, nesta brumosa aproximação de um ano novo que me prende à tela, Deus, o divino maravilhoso, entrou em fase de testes, digo, no meu mirabolante teclado. Porque o Alan, meu esteio, sendo a fé infinita enquanto me atura, jamais duvidou de algo além inserido em seu meio — não pode o pote ser o seu poteiro — nunca mais, pelo menos, depois do encontro experimental com aquele Ele, ousado o pulo.

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Mudou a literatura... ou?

Todo fim de ano é a mesmíssima coisa, chatíssima por sinal. Resisto, mas no final conquisto aos trancos e barrancos um jeito de descansar um pouco como todo mundo: insistir no trabalho nestes dez dias de (pre)juízo é mais inútil, embora menos doloroso, do que dar murro em ponta de faca.

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Última vez

oolhos-de-pinter, d'àpres Steven Forrest/ The New York Times


"Nunca consegui escrever uma peça feliz, mas consigo aproveitar uma vida feliz" me salva Harold Pinter, mais uma vez. Pela última vez.

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Os de(zzzzzzzzzzzzzzzz)mais

Umas das (poucas) vantagens de (ainda) não ser uma cronista famosa é que ninguém pergunta a minha opinião a respeito de quaisquer dez mais, praga crônica que assola os jornais nos feriados de ano novo e, não se enganem: é pura falta de assunto, todo mundo ocupado com todo outro tipo de coisa que se apresente enquanto se tenta — sem muito sucesso, como é o meu caso, diga-se de passagem — praticar o ócio, essa delícia fugaz, complexa e fora de contexto.